quarta-feira, 22 de abril de 2009

Vida, morte e brotoejas

A semana foi pródiga na espetacularização do corpo humano nas emissoras de TV abertas, embora desta vez o enfoque tenha sido o caráter biológico relacionado à doença, à saúde e a funcionalidade e utilidade dos órgãos após a morte. No Fantástico, volta à cena o médico mais midiático do Brasil, Dráuzio Varela, que corre o risco de entrar para o anedotário nacional logo logo como o Dr. Fantástico. Depois de falar de gravidez, obesidade infantil, sexo, adolescência e velhice, agora é a vez do mais desafiador dos seus propósitos no programa. Interferir positivamente no cenário da doação de órgãos no Brasil e contribuir para melhorar a estatística dos transplantes em todo o país. O quadro de estréia deve ter feito os telespectadores dados a muita frescura se retorcerem desconfortáveis no sofá da sala de TV.Pessoas literalmente à beira da morte, em função do mau funcionamento de algum órgão do corpo, apareceram sôfregos, trôpegos, lentos, mal respirando e articulando apelos pelas suas causas. Todos muito debilitados, seja por dores lancinantes, por um pulmão que já não tem eficácia, por um rim inerte, por um coração doente. Do outro lado do cenário, pessoas semimortas, em UTIS de grandes hospitais, onde o maior problema sequer é conseguir das famílias a autorização para a retirada dos órgãos e seu encaminhamento para salvar vidas. O maior nó, segundo Varela, está na ainda incapacidade de boa parte das equipes médicas de diagnosticar a morte cerebral a tempo de possibilitar o aproveitamento dos órgãos.BATE CORAÇÃO - Dois dias depois, estréia na Band o documentário-realidade E24 (relacionando-se a Emergência 24h), cuja essência é mostrar a rotina, sem retoques, do dia-a-dia das emergências de hospitais e dos resgates feitos pelo Corpo de Bombeiros de São Paulo. Numa linguagem de documentário e com imagens que falam por si, vê-se de tudo: corpos abertos cercados por cirurgiões em ação, a câmera exibindo em close o coração batendo no peito cortado de cima a baixo. Nesse instante, um médico viaja: estamos vendo a ‘a sede da alma’. O que os dois programas têm em comum é a semelhança com os congêneres estrangeiros exibidos na TV fechada e o deslocamento do corpo, do lugar comum de objeto, de templo de beleza, elemento máximo de suporte para o motor do consumo, do sexo, da indústria da boa forma, do mercado da estética e também do lugar de objeto da violência contemporânea, como se dá nos programas do campo popularesco, aliás, por aqui cada vez mais com as mãos na cabeça por conta das ações mais firmes do Ministério Público.O enquadramento do corpo nas cenas estreadas na última semana, na Globo e Band, é o corpo biológico esquadrinhado pelas tecnologias do mundo da medicina em seu enfrentamento contra a morte. O corpo confrontado com os limites ainda desafiadores impostos pela biologia, por maiores que tenham sido os avanços nas últimas décadas no adiamento da morte em ambiente hospitalar. Por aqui, na TV local, outras coisas do corpo, dessa vez os excrementos, também foram notícias. Agora é científico, técnico e prático: a mais cultuada prova feiosa de masculinidade em Salvador, o ato de mijar na rua, em qualquer lugar, está nada menos do que corroendo a estrutura da base de passarelas e viadutos. Coisa mais mimosa que essa notícia só mesmo a marca do colonialismo do leitor e telespectador nativos: a TV Bahia fez matéria sobre o assunto lá no início da semana, mas os baianos só tomaram conhecimento do fato quando a informação foi chupada e republicizada por veículos on line do Rio e São Paulo. Era um tal de ‘O Globo deu, o UOL deu’. Ora, ninguém vê TV local nessa paróquia?REALITY SHOW DE BERÇO - Mas, como a mesma letra que elogia e defende é a mesma que apontar a tacanhice, perguntar não ofende: de quem raios é, foi, a idéia de registrar em forma de um reality show de berço e fraldário o primeiro ano (incluindo pré-natal, parto, queda de umbigo, mamadas, brotoejas e detalhes da limpeza dos sólidos e líquidos excretados) de Clarice, a primeira neta de Daniela Mercury?Depois de agüentar uma semana inteira as bancadeiras dos telejornais locais dando inacreditáveis e tediosas receitas de peixe para o cardápio da Semana Santa e do estupro auditivo e visual que é ver o Padre Marcelo Rossi, aliás, com um jeitão de corpo e cara cada vez mais esquisito, dando nada menos que a receita do prato que Cristo comeu na Santa Ceia, eis que o pobre do telespectador é tratado como descerebrado pelo programa Bahia Revista (TV Bahia), aquele programa cuja marca registrada é o guarda-roupa assombroso dos apresentadores. As cenas do último domingo foram de uma utilidade pública sem par: como fazer lencinhos umedecidos caseiros para limpar o bumbum de Clarice, usando um vasilhame desses de fazer lasanha, umas colherinhas de óleo desses de bebê, água fervente e placas de algodão. E depois reclamam que a TV não informa. Aos vespertinos mundo-cão, uma sugestão: que tal acompanhar, dia a dia, mês a mês, a vida daquele bebê que há duas semanas nasceu no meio da calçada, em Salvador, no bairro de Ondina?

Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA.

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segunda-feira, 20 de abril de 2009

Bienal da exclusão ou do livro?


Acontece na capital do desemprego e da exclusão social a 9ª Bienal do Livro entre os dia 17 e 26 de abril.
De cara o tema nos traz uma interrogação que muitos de vocês leitores irão se perguntar e depois de uma rápida reflexão irão entender o por que.
Por se tratar de um evento de "inclusão cultural", podemos constatar que não inclui tanto assim, uma das coisas é o valor de entrada desse evento que custa 6,00 reais. Analisaremos agora: Sou morador de um determinado bairro e gostaria muito de participar mas para me deslocar a esse lugar tenho que pagar 2,20 de transporte mais 12,00 de entrada já que não tenho 1 metro e 20 de altura não sou estudante de escola pública e nem professor e muito menos bibliotecário, apenas sou um amante da leitura e desempregado.
Me pergunto como a 9ª edição da Bienal do Livro inclui se essas barreiras me impedem de está nela, tenho quase certeza que se fosse um show de pagode a entrada seria um 1 kg de alimento não perecível ou coisa do tipo. E que fique bem claro, não tenho nada contra aos pagodeiros.

sábado, 11 de abril de 2009

Conferência vai avaliar as políticas afirmativas municipais

Através da Secretaria Municipal da Reparação, a Prefeitura de Salvador promove nos dias 14, 15 e 16 de abril a II Conferência Municipal de Políticas de Promoção da Igualdade Racial. O evento será realizado no salão Xangô, do Centro de Convenções do Estado da Bahia e contará com a presença do prefeito João Henrique.


Vigilância promove II Seminário Estadual Violência

A Secretaria da Saúde do Estado da Bahia (Sesab) vai promover , por meio da Superintendência de Vigilância e Proteção da Saúde (Suvisa), o II Seminário Estadual Violência & Saúde. O evento faz parte de um pacto da Suvisa com a Superintendência de Vigilância Sanitária do Ministério da Saúde e acontecerá de segunda-feira, dia 13, a quarta-feira, dia 15, no Grande Hotel da Barra.

A abertura, às 8h30, será precedida pelo secretário da Saúde do estado, Jorge Solla. Participam também da solenidade de abertura a superintendente da Suvisa, Lorene Pinto; o superintendente de Atenção Integral à Saúde, Alfredo Boa Sorte; Gustavo Bergonzoli, representante da Opas (Organização Pan-Americana da Saúde); Marta Silva, da SVS/Ministério da Saúde; e Heloniza Costa, da Universidade Federal da Bahia.

O principal objetivo do seminário sobre violência e saúde é mobilizar instituições governamentais e não governamentais para a elaboração de diretrizes para uma Política Estadual de Redução da Morbimortalidade por Acidentes e Violências que oriente, integre a articule ações efetivas de enfrentamento desse problema no Estado. Para mais informações, visite o site da Sesab.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Machismo e anjos brancos

Recentemente, os poderes Legislativo e Judiciário e, consequentemente, a Polícia, vêm apertando o cerco contra a pedofilia e a violência contra as mulheres, aberrações que, inclusive, muito frequentemente, andam juntas. Expedientes como a instauração da CPI da Pedofilia, comandada pelo senador Magno Malta, e a promulgação da Lei Maria da Penha têm feito com que os meios de comunicação e a televisão em especial venham agendando o tema em suas coberturas como nunca antes. No entanto, diante do volume de casos divulgados e veiculados, surge uma pergunta nos moldes de ‘o que vem primeiro, o ovo ou a galinha’? Ou seja, explodiu no Brasil uma onda avassaladora de ações de pedófilos e agressores de mulheres ou foi a publicização desses casos, decorrente do fechamento legal e policial do cerco a tais criminosos que apenas deu visibilidade a índices que já existiam e não eram divulgados? O senso comum aposta na segunda hipótese, mas se estão corretos os defensores dessa tese, o que explica que no caso de violência contra mulheres o fenômeno cada vez mais descambe para assassinatos?

TIROS NO ÔNIBUS - Somente em um dia, a última quarta-feira, as chamadas dos telejornais traziam duas aberrações, considerando-se as redes de segurança e proteção institucionais hoje oferecidas pelo estado às mulheres ameaçadas de agressão. Em Salvador, uma jovem foi assassinada a tiros dentro de um ônibus urbano lotado, em horário de rush, pelo ex-marido que não aceitava a recusava às suas propostas de reatar o relacionamento e que já tinha tentado assassiná-la antes a facadas, chegando muito perto do intento. Uma amiga da vítima também foi atingida por tiros, na cabeça. No mesmo dia em que imagens trágicas e dantescas capturadas por celulares no interior do ônibus abasteciam alguns programas de TV, o assassino de outra mulher, morta em São Paulo no fim de semana, foi preso em uma rodovia na Bahia, quando fugia com o filho pequeno, raptado.

Diante desses dois casos, cai por terra a tese segundo a qual não se está matando nem mais nem menos mulheres, mas que tão somente tantos casos vêm à tona por conta dos mecanismos legais instaurados nos últimos tempos no país. Para os casos de agressão veiculados e que não culminam com mortes, esse raciocínio pode até ser válido. Mas assassinato é assassinato e não tem a ver com endurecimento de lei ou coisa parecida, mas com a permanência do machismo e do sentimento de posse e coisificação da mulher por parte de homens que, de tão fracos e estúpidos, não conseguem lidar com a recusa, como se as mulheres que eles escolhem para torturar estivessem condenadas a dois martírios irreversíveis: ou os ‘amam’ compulsoriamente e aceitam viver sob tortura física e moral o resto de suas vidas, ou recusam essa lógica doentia, saem desse jogo de perversão e, por isso, são punidas com o assassinato. Esses homens esfaqueiam-nas, as transformam em alvo de balas e depois choram demenciados diante de câmeras: ‘foi um acidente, não era para acontecer, era a mãe do meu filho’.

EXTINTOR - Casos como o da garota Eloá, em São Paulo, do goiano que, pensando ter assassinado a mulher com golpes de extintor de incêndio na cabeça numa rodovia, posteriormente arremeteu um helicóptero sobre um shopping, matando a si e a própria filha, do jogador de futebol que matou a ex-mulher por ciúmes e fugiu para a Bahia com o filho pequeno e do deficiente auditivo transformado em franco atirador no ônibus em Salvador se multiplicam aos montes e têm em comum históricos de agressão contra essas mesmas mulheres. A repetição em série de episódios como estes leva à tese de não bastam queixas em delegacias ou separações para evitar que mulheres espancadas sejam assassinadas por covardes perversos, pouco ou nada distintos dos monstrengos morais e patológicos que praticam violência sexual contra crianças e assassinam homossexuais, como se carregassem em si uma repulsa e uma atração torta a qualquer elemento que os remeta ao feminino, à sensibilidade, à fragilidade, à diferença.

No caso do jogador de futebol que assassinou a ex-mulher e fugiu para a Bahia, um detalhe chamava atenção na entrevista dada por policiais de Teixeira de Freitas (BA) que o prenderam. Na fala de um policial a José Luiz Datena (Band), o destaque era a beleza física do filho do assassino. O deslumbramento diante da criança branca de olhos claros era tamanho que o policial dizia comovido que o garoto deve ter ‘puxado’ à mãe, pois parecia um anjo, de tão bonito, de tão branquinho, com os olhos azuis (sic). Séculos e séculos depois muita coisa muda de nome, mas quase nada muda de lugar. Quem quiser que pense que a beleza e a cor da pele não é um forte e determinante elemento de comoção social. E, falando disso, não custa nada lembrar o poder do simbolismo da Santa Madre, a Igreja Apostólica Romana, que há séculos convence o mundo de que Jesus tinha cabelos cor de mel, tez branca e olhos claríssimos, mesmo nascendo em uma região do mundo onde uma das marcas corporais é a pele tostada. É igualmente criação da Santa Madre o retrato bonitinho dos anjos, representados como branquinhos, de cabelos claríssimos e olhos idem, uns fofos, como dizem as celebridades umas das outras. Quando será possível comparar uma criança negra a ‘um anjinho’?

Jovens temem violência, desemprego e educação ruim, diz pesquisa

Comemorou-se ontem o Dia Mundial da Juventude. Uma pesquisa do Instituto de Política e Econômia Aplicadas [IPEA] mostra alguns dos problemas que circulam esta parte da população no Brasil, que soma hoje 51 milhões de pessoas [entre 15 e 29 anos].


Violência, falta de educação e de oportunidades de trabalho são as três questões mais urgentes para os jovens ouvidos na pesquisa. Porque interligados, podem ser considerados como um problema só. É que sem uma rede educacional eficiente, a possibilidade de competir por um emprego diminui drasticamente, e a falta de trabalho é um dos fatores que contribuem para o aumento da violência.


Diz a pesquisa que entre os jovens de 15 a 17 anos, somente 48% estão matriculados em escolas do ensino médio. Na mesma faixa, 18% estão fora das escolas. Dos 18 aos 24 anos, a faixa eleva-se para 66%. Meninos põem a culpa na necessidade de trabalhar e as meninas falam em gravidez precoce como os principais causadores da evasão escolar.


Entre os jovens de baixa renda, o trabalho é o maior motivo para a evasão escolar. "No Brasil, não se permite aos jovens apenas estudar. Eles precisam
trabalhar para sobreviver. Além disso, há uma expectativa muito grande
dos pais para que eles ajudem no orçamento doméstico", avaliou o
sociólogo Domingos Abreu, professor da Universidade Federal do Ceará [UFC] e membro do Laboratório de Estudos da Violência.


A entrada no mercado de trabalho tem um sigfinicado também simbólico, de passagem, avalia o professor. "Na verdade, os jovens das classes mais baixas querem arranjar um emprego assim que podem. Para os jovens das classes populares, a vida adulta começa muito antes do que para os jovens da classe média", disse o professor.


A falta de qualificação, porém, impede que esta passagem se complete em boa parte dos casos. Da escola, muitos dos jovens seguem para o desemprego. A falta de trabalho é um problema para 46% do total de jovens entre 15 anos e 29 anos; entre aqueles que tem entre 18 e 24 anos e estão ocupados, 50% não tem carteira assinada.


Os jovens ouvidos na pesquisa também apontam a violência como problema. Os números do Ipea sustentam a indicação: as formas de morte mais incidentes nesta faixa da população são violência e os homicídios [38%] e os acidentes de trânsito, 27%.