Recentemente, os poderes Legislativo e Judiciário e, consequentemente, a Polícia, vêm apertando o cerco contra a pedofilia e a violência contra as mulheres, aberrações que, inclusive, muito frequentemente, andam juntas. Expedientes como a instauração da CPI da Pedofilia, comandada pelo senador Magno Malta, e a promulgação da Lei Maria da Penha têm feito com que os meios de comunicação e a televisão em especial venham agendando o tema em suas coberturas como nunca antes. No entanto, diante do volume de casos divulgados e veiculados, surge uma pergunta nos moldes de ‘o que vem primeiro, o ovo ou a galinha’? Ou seja, explodiu no Brasil uma onda avassaladora de ações de pedófilos e agressores de mulheres ou foi a publicização desses casos, decorrente do fechamento legal e policial do cerco a tais criminosos que apenas deu visibilidade a índices que já existiam e não eram divulgados? O senso comum aposta na segunda hipótese, mas se estão corretos os defensores dessa tese, o que explica que no caso de violência contra mulheres o fenômeno cada vez mais descambe para assassinatos?
TIROS NO ÔNIBUS - Somente em um dia, a última quarta-feira, as chamadas dos telejornais traziam duas aberrações, considerando-se as redes de segurança e proteção institucionais hoje oferecidas pelo estado às mulheres ameaçadas de agressão. Em Salvador, uma jovem foi assassinada a tiros dentro de um ônibus urbano lotado, em horário de rush, pelo ex-marido que não aceitava a recusava às suas propostas de reatar o relacionamento e que já tinha tentado assassiná-la antes a facadas, chegando muito perto do intento. Uma amiga da vítima também foi atingida por tiros, na cabeça. No mesmo dia em que imagens trágicas e dantescas capturadas por celulares no interior do ônibus abasteciam alguns programas de TV, o assassino de outra mulher, morta em São Paulo no fim de semana, foi preso em uma rodovia na Bahia, quando fugia com o filho pequeno, raptado.
Diante desses dois casos, cai por terra a tese segundo a qual não se está matando nem mais nem menos mulheres, mas que tão somente tantos casos vêm à tona por conta dos mecanismos legais instaurados nos últimos tempos no país. Para os casos de agressão veiculados e que não culminam com mortes, esse raciocínio pode até ser válido. Mas assassinato é assassinato e não tem a ver com endurecimento de lei ou coisa parecida, mas com a permanência do machismo e do sentimento de posse e coisificação da mulher por parte de homens que, de tão fracos e estúpidos, não conseguem lidar com a recusa, como se as mulheres que eles escolhem para torturar estivessem condenadas a dois martírios irreversíveis: ou os ‘amam’ compulsoriamente e aceitam viver sob tortura física e moral o resto de suas vidas, ou recusam essa lógica doentia, saem desse jogo de perversão e, por isso, são punidas com o assassinato. Esses homens esfaqueiam-nas, as transformam em alvo de balas e depois choram demenciados diante de câmeras: ‘foi um acidente, não era para acontecer, era a mãe do meu filho’.
EXTINTOR - Casos como o da garota Eloá, em São Paulo, do goiano que, pensando ter assassinado a mulher com golpes de extintor de incêndio na cabeça numa rodovia, posteriormente arremeteu um helicóptero sobre um shopping, matando a si e a própria filha, do jogador de futebol que matou a ex-mulher por ciúmes e fugiu para a Bahia com o filho pequeno e do deficiente auditivo transformado em franco atirador no ônibus em Salvador se multiplicam aos montes e têm em comum históricos de agressão contra essas mesmas mulheres. A repetição em série de episódios como estes leva à tese de não bastam queixas em delegacias ou separações para evitar que mulheres espancadas sejam assassinadas por covardes perversos, pouco ou nada distintos dos monstrengos morais e patológicos que praticam violência sexual contra crianças e assassinam homossexuais, como se carregassem em si uma repulsa e uma atração torta a qualquer elemento que os remeta ao feminino, à sensibilidade, à fragilidade, à diferença.
No caso do jogador de futebol que assassinou a ex-mulher e fugiu para a Bahia, um detalhe chamava atenção na entrevista dada por policiais de Teixeira de Freitas (BA) que o prenderam. Na fala de um policial a José Luiz Datena (Band), o destaque era a beleza física do filho do assassino. O deslumbramento diante da criança branca de olhos claros era tamanho que o policial dizia comovido que o garoto deve ter ‘puxado’ à mãe, pois parecia um anjo, de tão bonito, de tão branquinho, com os olhos azuis (sic). Séculos e séculos depois muita coisa muda de nome, mas quase nada muda de lugar. Quem quiser que pense que a beleza e a cor da pele não é um forte e determinante elemento de comoção social. E, falando disso, não custa nada lembrar o poder do simbolismo da Santa Madre, a Igreja Apostólica Romana, que há séculos convence o mundo de que Jesus tinha cabelos cor de mel, tez branca e olhos claríssimos, mesmo nascendo em uma região do mundo onde uma das marcas corporais é a pele tostada. É igualmente criação da Santa Madre o retrato bonitinho dos anjos, representados como branquinhos, de cabelos claríssimos e olhos idem, uns fofos, como dizem as celebridades umas das outras. Quando será possível comparar uma criança negra a ‘um anjinho’?
quarta-feira, 1 de abril de 2009
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Nossa !!!
ResponderExcluirQ matéria em?
É exatamente isso...
Fale mesmo...sempre...